Por: Alan Rich / Blog Sudoeste | sex, 15/05/2026 - 14:00
Os acidentes envolvendo motocicletas geraram um custo de R$ 148,6 milhões para a rede hospitalar pública da Bahia apenas em 2025. O levantamento da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab) aponta uma pressão crescente sobre o Sistema Único de Saúde, com um aumento contínuo nos gastos anuais, que somaram R$ 138 milhões em 2024 e R$ 115,8 milhões em 2023.
O custo médio de internação por paciente é estimado em R$ 10,6 mil, valor que engloba desde o atendimento inicial no Samu até procedimentos cirúrgicos e reabilitação. O tempo médio de permanência hospitalar é de sete dias, podendo se estender para 15 dias nos quadros mais graves que exigem internação em UTI. A região Centro-Leste concentrou o maior impacto financeiro, com R$ 45,7 milhões em custos, seguida pela região Leste, com R$ 36,9 milhões.
O perfil das vítimas revela que 81% dos pacientes são homens, majoritariamente na faixa entre 18 e 40 anos. Muitos são trabalhadores que utilizam a moto como fonte de renda, como motoboys e entregadores por aplicativo. De acordo com a Sesab, as lesões provocadas por esses acidentes são complexas, incluindo fraturas expostas, traumas de coluna e amputações, o que mobiliza diversas áreas da assistência hospitalar, desde a neurocirurgia até o banco de sangue.
No Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB), o reflexo dessa realidade é direto: 60% dos atendimentos de urgência regulados mensalmente são decorrentes de acidentes de trânsito, sendo que 40% desse total envolvem motociclistas. A Secretaria da Saúde alerta que, além do alto custo assistencial, o cenário gera graves impactos sociais, como o afastamento prolongado do trabalho e sequelas permanentes para as vítimas.
A manhã desta sexta-feira (7) foi marcada por uma das sessões mais comentadas do ano na Câmara de Vereadores de Livramento de Nossa Senhora, no sudoeste da Bahia. Em pauta, o Projeto de Lei nº 30/2025, de autoria do vereador Joseph Lima Ramos (Zé Pinha), que propõe a criação de um espaço público regulamentado para a prática do “grau”, modalidade em que motociclistas realizam manobras sobre uma roda, conhecida tecnicamente como wheeling. Apresentado como uma proposta de organização e segurança, o projeto dividiu opiniões no plenário e fora dele. O autor, vereador Zé Pinha, argumentou que o objetivo é retirar das ruas e rodovias uma prática que já existe e oferecer aos jovens um local adequado, seguro e supervisionado. “Esses meninos precisam de um espaço para o esporte deles. É melhor ter um lugar próprio do que arriscar vidas na BA. O projeto vem justamente para proteger e dar condições seguras para quem gosta da modalidade”, explicou. A discussão ganhou força após a fala do vereador Zeferino de Paula Lima Neto (Zifa), que adotou um tom mais crítico e provocou reações acaloradas no plenário e nas redes sociais. Ele destacou que, embora reconheça o “grau” como um esporte radical, o momento não é o mais adequado para a sua regulamentação. “Sou simpatizante dos esportes radicais, mas a cidade vive uma realidade delicada. Temos poucos ortopedistas e uma fila grande no SUS. O que acontece se um desses jovens se machuca? Quem paga essa conta é o município. A intenção do colega é boa, mas a proposta precisa ser amadurecida com responsabilidade”, afirmou. Zifa também mencionou o grupo Livramento City, que representa o município em encontros e eventos de motociclismo em cidades da região. Segundo o vereador, o grupo é formado por jovens dedicados, mas com pouca estrutura para garantir a segurança ideal. Ele defendeu um debate mais amplo com as secretarias de Saúde, Esportes e Segurança Pública, além de ouvir o Ministério Público e a Polícia Militar. Após as falas, vereadores que acompanharam o posicionamento pediram vista coletiva do projeto, o que suspende temporariamente a votação até que o texto seja reavaliado. O presidente da Câmara, Cidão Aracatu, acatou o pedido e ressaltou que o assunto deve retornar à pauta após estudos técnicos e diálogo com os órgãos competentes. Fora do plenário, o debate se espalhou rapidamente pelas redes sociais. Comentários contrários apontaram que o Legislativo deveria priorizar temas como saúde, educação e infraestrutura. “Tanta coisa importante pra resolver, e vão gastar tempo com isso?”. Já defensores da proposta consideraram que o projeto representa um avanço. “É melhor criar um espaço próprio do que deixar os jovens fazendo isso nas ruas”, comentou um seguidor. Outro completou: “Quem critica é o mesmo que reclama quando alguém empina moto na avenida”. Ao Blog Sudoeste, integrantes do grupo Livramento City afirmaram que o “grau” é um esporte legítimo e que a proposta pode representar um avanço na inclusão e valorização da juventude. “Muitos acham que é bagunça, mas pra gente é esporte. Queremos um espaço seguro, como o campo é pro futebol. Nosso objetivo é praticar com responsabilidade e tirar jovens das ruas”, disseram. O projeto segue em tramitação na Câmara e voltará a ser discutido após as análises jurídicas e técnicas. A prática do “grau” é proibida em vias públicas, conforme o Código de Trânsito Brasileiro, e o texto em discussão busca apenas instituir um espaço específico e controlado para sua prática esportiva.